Olá caros leitores, confesso que estou inspirada essa manhã e nada melhor
do que receber esse presente de mensagem nas primeiras horas da manhã e uma por
sinal uma manhã de domingo. Tenho o prazer de compartilhar textos inspirados
com vocês, esses nos fazem refletir sobre as simples coisas da vida, tão
simples que fazem toda diferença em determinados momentos. Antes de despedir
quero desde já parabenizar Brasilia, a nossa cidade, que completa hoje 53 anos
e exatamente há 11 anos é minha morada. Grande beijo para todos...
Não abandonamos o quarto no domingo
Fabrício Carpinejar
Acordamos
e não nos levantamos.
Desde que
nos apaixonamos, a cama é o nosso acampamento.
Despertamos
cedo e ficamos conversando, recapitulando a rotina, rindo à toa.
É um
domingo inteiro assim, entre travesseiros, almofadas e edredom.
O quarto
permanece trancado, as cortinas fechadas, o jornal empilhado na porta.
De vez em
quando, um dos dois é sorteado como emissário da geladeira, para buscar frutas
ou água. É uma visita rápida pelos demais aposentos, na ponta dos pés para não
assustar as pálpebras.
Não é
aconselhável demorar pela sala, para a claridade não quebrar o encanto e nos
obrigar a sair à rua.
Somos
sonâmbulos um do outro. Viciados um no outro. Intoxicados um do outro.
Passamos
os dias no colchão travando histórias e revelando segredos.
A cama é o
nosso hotel, nossa casa na serra, nossa residência de praia, nosso bunker,
nosso pub, nossa água-furtada.
A cama é o
que precisamos do mundo, o resto pode levar.
Reduzimos
o universo àquele estrado de madeira, e nos divertimos com os problemas
antigos, com as dores antigas, com aquilo que nos antecedeu e ainda não era a
gente.
Na
verdade, sinto que estudo para o vestibular de sua memória. Olho o teto coberto
de fórmulas, fotos, cenas, equações e cálculos de sua vida.
Decoro
suas sobrancelhas, seus suspiros, sou um mímico atento de seu rosto.
Faço
perguntas despropositadas - nunca prevejo o que vai cair na prova do amor.
Interesso-me
por qual lugar que sentava no colégio Champagnat. Me diz que era no fundo, com
as costas coladas na janela.
E você me
interroga a cor da minha térmica no jardim de infância do Santa Inês. Falo
rápido que era azul.
Quem teria
coragem de fazer essas questões senão quem ama? Mais: quem responderia com
naturalidade essas questões senão quem ama?
Não nos
assustamos com nenhuma gratuidade. Não estranhamos a curiosidade ou nos
envergonhamos da loucura.
Intimidade
é não temer o que será feito com nossas palavras.
Deitamos
de lado, atravessados, você em meu peito, eu encaixado na moldura de seu
pescoço. Giramos para esquerda, tonteamos para direita, argumentamos,
confortamos, descrevemos nossos amigos, confessamos nossos pecados, sussurramos
bobagens.
Os ouvidos
se tornam rápidos como a boca. Falo e ouço na mesma hora.
Nossas
mãos se beijam, nossos pés se beijam.
Tudo é
intenso entre nós a ponto da lembrança criar a experiência. É como se nossos
olhos fossem aquela máquina polaroid cuspindo fotos.
Os
vizinhos devem suspeitar que já morremos, mas nunca estivemos tão vivos
Publicado
pelo jornal Zero Hora
Coluna
Semanal, Revista Donna. p. 06
Porto
Alegre (RS), 21/04/2013

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